Formalismo e funcionalismo na ciência da linguagem

A linguística contemporânea é marcada por diferentes vertentes teóricas que se constituíram ao longo do século XX e que se consolidam neste início do século XXI. No que concerne ao campo científico da linguagem, a riqueza teórica na formação epistemológica de um objeto de estudo conduziu a linguística às duas principais perspectivas de análise: FORMALISMO e FUNCIONALISMO. Cronologicamente, poderíamos dizer que esses dois paradigmas teóricos surgiram em momentos bastante próximos, no início do século XX, definindo os dois modos essenciais de análise da linguagem, ora se pautando na FORMA linguística ligada às unidades estruturais da língua, ora priorizando a FUNÇÃO que tais unidades lingüísticas assumem no sistema.

Entre os expoentes do formalismo linguístico podem-se incluir linguistas vinculados ao estruturalismo norte-americano (Leonard Bloomfield, Fries, Harris), bem como aqueles que contribuíram, de algum modo, nos sucessivos modelos do gerativismo de Noam Chomsky.  O funcionalismo, por sua vez, encontra-se ligado, inicialmente, aos autores do estruturalismo europeu da Escola de Genebra (Saussure, Martinet), da Escola de Praga (Trubetskoy, Jakobson, Danes). Em seguida, desenvolve-se nos modelos de gramática funcional apresentados na Escola de Londres (Firth, Halliday) e no Grupo da Holanda (Reichling, Dik).

Estudar a língua do ponto de vista FORMAL significa dar destaque à autonomia das formas linguísticas (especialmente na sintaxe), concebendo as unidades da língua como parte essencial da gramática (mental) que compõe a competência linguística do falante. Uma análise FUNCIONAL, por sua vez, se caracteriza pela investigação dos aspectos e mecanismos funcionais que regem o sistema, focalizando-se a língua em uso e a competência comunicativa do falante. Reconhece-se, assim, que o conhecimento linguístico (mental) que rege a competência dos falantes, que lhes permite distinguir entre aquilo que é “gramatical” e “agramatical” na língua, não é o mesmo conhecimento (sociointeracional) que faz com que esses mesmos falantes usem a língua adequadamente em variados contextos.

Se tomarmos como exemplo a análise de categorias verbais, destacando-se a questão do uso de preposições na regência do verbo, um estudo formalista daria conta apenas das possíveis combinações verbo-preposição na estrutura gramatical da língua, enquanto que uma análise funcional focalizaria essa mesma combinação a partir do seu uso em variados contextos de comunicação. Assim, no paradigma funcional, a transitividade (direta ou indireta) e intransitividade de algumas categorias verbais (assistir, obedecer, atender etc.) podem ser vistas muito mais como uma questão de “uso” que de “estrutura”, refletindo-se na realidade linguística do falante.

Enfim, longe de serem perspectivas teóricas excludentes, formalismo e funcionalismo tornam-se complementares no percurso histórico da ciência da linguagem, uma vez que a linguística contemporânea lança sobre o seu objeto – a língua – diferentes olhares e reflexões. Sem dúvida, o que se pode depreender de tal oposição é o fato de que a linguagem é sempre multifacetada, incluindo forma e função, estrutura e uso, abstração e realidade: dimensões essenciais e insubstituíveis da comunicação humana.

Referências

DARNELL, Mark et al. (ed.). Functionalism and formalism in linguistics. Vol 1: General Papers. Studies in Language Companion Series. London: John Benjamins Publishing Company, 1999.

NEVES, Maria Helena de Moura. As duas grandes correntes do pensamento linguístico: formalismo e funcionalismo. In: A gramática funcional. São Paulo: Martins Fontes,1997.

TLC – Formalismo e funcionalismo na ciência da linguagem